Liga não é só TV: é pacto e renúncia entre clubes

Liga não é só TV: é pacto e renúncia entre clubes

Entender que rival não é inimigo, mas ativo, é o passo que falta para o futebol brasileiro.
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O futebol brasileiro ainda não sacou que liga não é um nome bonito pra vender direitos de TV. É uma arquitetura de poder que exige algo que poucos clubes estão dispostos a dar: renúncia. Rival não é inimigo, é ativo. E enquanto isso não entrar na cabeça de dirigentes, vamos continuar vendo o mesmo carnaval de sempre.

Pega o exemplo da NFL, o maior espetáculo da terra. Lá, o Green Bay Packers sabe que precisa do Dallas Cowboys. O Lakers precisa dos Celtics na NBA. Parece papo de torcedor romântico, mas é business puro. Sem adversário forte, não há tensão, produto ou mercado. E o mais louco: o Dallas Cowboys, que é uma máquina de dinheiro, recebe a mesma fatia de TV que franquias menores. Absurdo? Não, é estratégia. É o que mantém o equilíbrio competitivo e o valor de longo prazo. Aqui, os caras querem levar vantagem em tudo, e no fim quem perde é o campeonato.

A Premier League aprendeu a mesma lição há tempos: direitos vendidos em bloco, distribuição que mistura igualdade com desempenho e exposição. O Manchester United cresce, mas o motor central é coletivo. Nenhum clube pode ser tão forte a ponto de destruir o produto que valoriza a todos. E não é só bondade: é matemática. Um campeonato equilibrado atrai mais audiência, mais patrocinadores, mais dinheiro no bolso de todo mundo. Mas no Brasil a gente ainda acha que rival é pra ser humilhado, não pra ser parceiro.

No Brasil, a história é outra, e não é bonita. Libra de um lado, FFU de outro, negociações fragmentadas com Globo, Record, CazéTV, Amazon. A Lei do Mandante deu liberdade, mas aumentou a fragmentação. Cada um no seu quadrado, fazendo seu contrato, pensando no seu umbigo. Falta governança coletiva, falta alguém pra botar ordem nessa bagunça. A cultura do ‘meu contrato’, ‘minha torcida’ impede a criação de um ativo coletivo. Enquanto isso, o futebol inglês e o americano seguem voando, e a gente aqui discutindo se o jogo vai passar na TV aberta ou no streaming.

E olha que não falta talento. O Brasil continua produzindo jogadores de ponta, emoção de sobra e aquele improviso que encanta o mundo. Mas sem uma competição forte, tudo isso vira desperdício. O mercado de TV segue pulverizado, os clubes continuam endividados, e a torcida fica refém de calendário maluco e arbitragem duvidosa. Enquanto a discussão se limitar a ‘quanto meu clube recebe?’, não haverá liga – só rateio. E rateio, meu amigo, não constrói futuro.

O Brasil precisa decidir se quer clubes fortes ou uma competição forte. E sim, é possível ter os dois, mas o caminho é coletivo. Competição forte cria valor recorrente, atrai capital, desenvolve produto e eleva a gestão. Sem pacto e renúncia, o futebol brasileiro continuará produzindo talento, emoção e improviso – mas também crise, dívida e novela. A escolha é nossa. Ou a gente aprende com os gringos, ou segue no ‘jeitinho’ que só enfraquece o espetáculo.

Fonte: maquinadoesporte.com.br

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